MúSICA
Hiena d'Áustria
17 OUT 2026
Mito maior do imaginário e da literatura greco-latina, Medeia, é uma tragédia exemplar fixada no tempo primordialmente por Eurípedes e depois por esta apropriação de Séneca.
Mas se o mito é o mesmo a fixação da tragédia dramática não o de todo. Séneca não copia, transforma, sublinha e expõem a história dos momentos finais de Medeia como triunfo absoluto do irracional. É uma história de amor mas também de cólera, de compaixão mas também de vingança mas é, talvez mais do que tudo, uma história onde os atos ilógicos se sucedem para originar outras e ainda maiores irracionalidades.
O tempo de Séneca é o tempo de Nero já em pleno delírio, o tempo de Agripina e Messalina, o tempo da ameaça constante de degredo ou morte, o tempo do deboche desmedido e da mais impensável crueldade. O tempo da mais completa irracionalidade.
É neste tempo incerto que Séneca, filósofo, político, milionário, exilado, vai retomar com um novo olhar sobre esta mãe arrastada, melhor que se arrasta, para o domínio da loucura do descontrole das emoções até ao limite do assassinato dos seus próprios filhos, lido Eurípedes mas certamente também Ovídio, Quinto Énio, Apolónio de Rodes e, naturalmente, Eurípides. Séneca propõe em Medea mais do que a adaptação ao gosto romano da época, plenas de declamação, descrições e lugares-comuns do estoicismo, propõe que se olhe de perto este fenómeno que toma conta de toda a sociedade romana.
Modifica e cria cenas, expõe Medeia, feiticeira, neta do Sol, filha de Rei, repudiada pelo marido e condenada ao exílio pelo rei, a engendrar e depois concretizar a sua vingança, e todas personagens realmente a uma luz diferente daquela com que Eurípedes fez iluminar o mito.
Esta leitura cénica que Séneca propõe vai para lá dos detalhes, por exemplo em Eurípedes a morte das crianças é ouvida, em Séneca é vista, na nossa adaptação nem uma coisa nem outra, ao contornar os constrangimentos da construção tradicionais da tragédia, as unidades de tempo e espaço mas sobretudo ao introduzir na linguagem dramática a ausência de clímax e o enfatizar de uma narrativa toda ela construída in medias res. Curiosamente ambos alicerces da construção dramática contemporânea.
Há em Séneca se não uma genuína liberdade de criação pelo menos uma habilidade indesmentível no tornear dos constrangimentos formais da construção dramática que, de certo modo, nos “autoriza” as liberdades de uma adaptação criada a dois mil anos de distância.
31º ACASO Festival Internacional de Teatro
Companhia: O Nariz Teatro
Texto: Luís Mourão
Encenação: Pedro Oliveira/Vitória Condeço
Ambiente cénico: Andrzej Kowalski
Ambiente sonoro: Inês Condeço
Edição de vídeo: Lisa Teles
Acompanhamento técnico: José Luís Carvalho
Produção: O Nariz Teatro
Co-produção: Teatro José Lúcio da Silva/RTCP
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